domingo, 7 de março de 2010

adeus kollwitztrasse 52.




Já não faço o mesmo caminho para voltar para casa. Não vejo mais as luzes verdes do bar embaixo do prédio, que anunciavam o destino próximo e quente. A alegria de estar a poucos passos de um ar que já não machucaria o rosto. Estar prestes a evitar o congelamento iminente dos dedos da mão. Para chegar em casa, já não abro a porta de madeira pesada para entrar primeiro no hall escuro; não passo embaixo da cabeça do alce pendurada no alto da parede direita; não subo um lance de escada pisando firme os degraus e ouvindo o som oco da madeira. Não avisto mais a porta cinza, o desenho que vc pregou na parede quando nos mudamos; não giro a chave olhando para ele e lendo pela milésima vez – “we are alive, so we moved in”. Lembrar disso todos os dias por dois meses despertou um senso de responsabilidade pela vida que eu não quero mais perder. Mas em um segundo esses pensamentos seriam interrompidos pela iminência de despejar no chão do corredor o casaco, o cachecol, a toca de lã e as luvas. E eu finalmente tiraria o sapato sujo de neve e lama e o colocaria ao lado da porta. Mas agora já não mais. Já não tenho que pensar no fato de termos de novo esquecido o aquecedor ligado e nem me preocupar com a conta que não virá em nosso nome. Nem na possibilidade de que um de vcs esteja em casa. Não estarão. A possibilidade de se surpreender ao abrir a porta e entrar em casa é algo que só se tem qdo não se mora sozinho. Sem cachorro, gato ou faxineira ela é remota. Não há surpresas sem o outro. A possibilidade de encontrar os móveis em outro lugar e poder observar os rastros de uma vida que não é a sua e que fez percursos diferentes do seu durante o mesmo dia. Ainda que o que tenha ficado à vista seja apenas o bilhete usado de metro e o flyer de uma festa que já passou. A comunicação por meio das coisas que escolhemos deixar aos olhos do outro é tão misteriosa e baseada em suposições quanto palavras . Depois eu percorreria o corredor até o fim, iluminado pela luz amarela de uma noite sem janelas. Passaria pela sala, colocaria pra tocar o vinil que já estaria posto na vitrola. A herança deixada pelo ultimo a sair. Eu gostava de não ter sido a última a sair e poder encontrar o Cash ou o Van Zandt que vc teria colocado pra tocar à tarde, quando estava se divertindo com a sua solidão e com o beque que vc teria fumado sozinho. Antes da gente chegar. Uma epifania que só faz sentido se se tem a perspectiva próxima da companhia. As suas duas companhias estariam a caminho. Um dia vc me surpreendeu com o vinil novo de Adam Green e era um dia em que a voz forte desse menino cantou para os meus ouvidos assustados pelo desconhecido. O dia em que o outro menino misterioso de chapeu esteve em casa e em que comemoramos a expectativa do show que não conseguiriamos ir. E foi esse foi o dia em que todas as expectativas foram defraudadas. O correio alemão falhou bem na nossa vez e tudo o que tínhamos a fazer era pedir o reembolso do dinheiro pago. Como se fosse possível. Como se fizéssemos questão. Com a musica escondendo o silencio da casa vazia, eu andaria até a cozinha para tomar água da torneira e talvez parasse no banheiro antes. Nem que fosse por puro hábito, faria um pouco de xixi. A luz do espelho mostraria a secura da pele do meu rosto e a foto do rio de janeiro no canto esquerdo acima da nossa cabeça mostraria a umidade perdida da retina dos meus olhos. O ar seco do aquecedor ligado o dia todo soprava atraves da minha lente de contato e secava a nossa roupa limpa pendurada nos canos de ar. Hoje havia sido o dia de lavar roupas coloridas. O cesto cheio de roupas brancas esperando a hora certa, porque tudo tem uma hora certa para acontecer. E vai acontecer quando e onde vc menos espera. Vc cortara seu cabelo e seus cachos estavam agora jogados no lixo do banheiro. Como flores que não estão mais no vaso e que estao condenadas a secar. Como o vestigio de uma auto-mutilaçao que vc fingia querer suportar em silêncio. Na cozinha, eu tomo a água da torneira e já nem ligo para o excesso de calcario. A agua é um liquido branco e espesso, que sai pesado da boca da torneira e chega pesado na minha. Eu abriria a geladeira e notaria que já não temos muito o que comer. Penso em ir ao mercado 24 horas da kastanianallee nem que seja para comprar yogurte para o café da manhã. Eu compraria um pote de yogurte natural com a menor porcentagem de gordura possível para nós dois e mango-vanilla para ele. Mas terminaríamos todos comendo mango-vanilla em alguma noite longa em que teríamos consumido nossas energias dançando deep house. Comeríamos sem pudores diretamente da embalagem de vidro. Tem sempre uma hora da madrugada em que fazemos coisas que não ousaríamos fazer no café-da-manhã. Então eu pego a única maçã que restou no fundo da gaveta de legumes. Ela já está um pouco murcha, mas é só o que há, além dos biscoitos de arroz, que me parecem secos demais para essa hora do dia. Lavo a maçã e saio para caminhar pela casa, pensando apenas no fato de que maçã é uma fruta bem prática para se comer andando. Encaro a janela da sala e vejo pedestres tristes passando lá embaixo, pisando a neve da kollwitzstrasse. Uma visao que não se repetiria em um futuro próximo. O sentido de transitoriedade que eu já sabia que deveria existir, mas que eu negava. Agora que voltei ao sul, já não uso mais tanta roupa. Não separo o lixo com tanto capricho. Não espero mais o sábado pela feira de produtos organicos e frescos trazidos por produtores locais ao centro do bairro burgues de berlin. Não tem mais tantas variedades de yogurte na geladeira. Minha fome é saciada com coisas diferentes. Nao há mais a alegria de ter encontrado na padaria o nosso pão preferido, com grãos de centeio molhadinhos, que comeríamos juntos na mesa da cozinha, provavelmente coberto com uma fatia de queijo de cabra fresco, sob a luz amarela e o silencio do sono chegando. Assim como esquimós e suas muitas palavras para designar os diferentes tons de branco, que não fazem nenhum sentido para nós, eu sinto um conjunto de palavras que vão aos poucos desaparecendo e entrando em desuso no meu vocabulario. Snow-rain nem mesmo existe em portugues. Não importa mais saber se a neve das ruas de berlin está fofa ou já endureceu e virou gelo. Isso já não pode interferir em nosso equilíbrio. Nem os ventos que vêm da Rússia. Já não importa saber em qual lixo jogar a embalagem vazia do suco de frutas artificiais. Nem consultar a tabela de calorias para ver a diferença entre o müsli sem açúcar e o müsli crocante de mel e coco, pois não estão à venda aqui. A que horas sairá o próximo metro da estação Senefelderplatz direção Ruhleben na noite deste sábado é uma informação que continuamos podemos acessar no site da bvg , mas ela já não diz se temos que nos apressar ou temos tempo para um ultimo cigarro ao lado da porta. Ela já não tem efeito em nossa vida. Há uma série de hábitos, circunstancias, cheiros, objetos, lugares e pessoas que estão aos poucos perdendo o poder de interferir no curso da nossas vidas. É como um universo aprisionado em uma bolha de elementos auto-referentes, que aos poucos vai se desmanchando. E por um instante eu tenho medo de que eles desapareçam da nossa memória como as fotos tiradas em filmes polaroids perdendo a cor. Por um instante eu me vejo entre o desejo de me livrar do entorpecimento da nostalgia e o medo de deixar tudo isso morrer. Acho que é exatamente quando se está aí no meio dessas duas coisas, que vc entende de verdade o que é a memória. Se o passado não é contemporaneo do presente, mas o presente nunca vai ser o presente sem coexistir com um passado que já foi presente, significa que não seremos hoje, sem ter o que fomos. E isso é só o tempo abrindo mais um sulco dentro de nós para guardar num arquivo zipado cada instante daquilo que vivemos numa cidade real, bela e feia ao mesmo tempo, suja e organizada ao mesmo tempo, reunificada, mas também dividida, cheia de historias de guerras e de amores; no inverno mais rigoroso dos ultimos tempos; com a neve mais persistente dos ultimos tempos; numa das casas mais lindas que já estivemos; onde cada um de nós esteve ao lado de duas pessoas que foram toda a sua familia na noite de natal; e que se amaram o suficiente para não deixar o coração congelar. O presente é o estado mais contraído desse momentos que já não mais se repetirão. O presente é o paradoxo estranho entre a preexistencia e a coexistencia de todas essas coisas, mesmo que eu não veja mais a paisagem branca pela janela. Mesmo que o nosso lar berlinense seja hj só um monte de caquinhos impossíveis de serem colados. Mesmo que Kollwitzstrasse 52 seja um lugar que não existe mais. We are alive, so we moved out.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Everything in the world began with a yes.

Eu disse que estava sozinha e que isso as vezes era dificil. Voce olhou para mim e disse: o que vc quer dizer com estar sozinha? Sozinha significa com todo mundo, não? Vc olhando o mundo por meio de uma janela aberta e eu tentando olhar pelo buraco da fechadura de uma porta fechada por uma maçaneta difícil de virar. Eu estou do lado de dentro, sozinha. Eu mesma a fechei naquele momento em que aquele vento idiota passou por mim e me fez ter medo. Sim, medo é diferente de instinto, mas se vc os confunde por apenas um segundo e isso acontece no momento preciso em que está pisando a borda da porta e segurando a maçaneta, é só disso que vc precisa para dar um passo atrás e fechá-la. Na cara de quem quer que seja. Na sua própria. No momento seguinte vc se sente segura e protegida. E também um pouco morta. Ouvindo o silencio da sua própria solidão. E essa solidão não é do mesmo tipo da que vc mencionou. É um tipo de arbusto cheio de espinhos que só brota no deserto e que não tem cheiro de possibilidades. Os espinhos nascem em todo o lugar e suas raízes atravessam as várias camadas que envolvem o meu corpo. Eu comecei faz tempo a construir essas camadas por cima da minha pele e agora elas estão tão grossas que eu tenho dificuldade de me mexer aqui dentro. Às vezes as minhas mãos começam a formigar e eu tenho a impressão de que tem algo bloqueando a minha circulação, fazendo com que meu sangue fique acumulado na cabeça. Eu sempre pensei que para caber nessa roupa é preciso comer pouco. Mas agora vou entendendo devagar que o que preciso é de menos roupa. A ponta dos meus dedos estão machucadas pelos espinhos. E doem. É muitas vezes no meio da noite que os cortes começam a inflamar. Se eu estou dormindo, eu não percebo. Mas às vezes eu acordo com o barulho de alguma coisa se quebrando lá dentro. Um barulho abafado de algo caindo e cacos de vidro se espalhando. Depois um barulho violento do fogo queimando castelos. Quando isso acontece eu não consigo voltar a dormir. A noite é longa, mas tudo passa quando eu posso declarar que ela acabou e tomar o primeiro café do dia. Às vezes as noites barulhentas e frias são melhores do que as noites mornas e úmidas, em que a falsa calma da tristeza vai se movendo devagar pelo corpo, ocupando espaço pouco a pouco e obstruindo os poros com uma espécie de gordura branca. Eu prefiro ser tomada por sentimentos mais fortes. Aqueles que conseguem atravessar o isolamento e chegar aos meus ouvidos. Agora eu me olho no espelho eu vejo apenas a ponta vermelha desse espinho que nasceu bem mo meio do meu rosto. As cores e os fluidos de uma inflamação aparente. Meus hormônios lutando para ultrapassar as camadas sobre a minha pele e chegar até a superfície. Eu vasculho a minha mochila vermelha procurando a chave da porta. Eu sei que ela está em algum lugar lá no fundo, entre os papéis meio amassados, os bilhetes de metrô já usados e a maçã que levo comigo para enganar a fome. Minhas mãos tateando no escuro da mochila e os ouvidos esperando pelo barulho metálico do molho de chaves tilintando. Olhamos juntos para o mesmo teto. Eu apertando os olhos para tentar enxergar o meu reflexo no lustre e vc quase fechando os seus e sorrindo sem motivo. Em alguma cidade ao sul da Alemanha, o trem que me levaria de volta já começara a rodar. Ele passará para me pegar dentro de algumas horas. Eu estou acordada, minhas mãos já não formigam e eu não sinto mais a inflamação dos cortes nos meus dedos. -You need to put your pants back on, honey. Isso é quando vc finalmente entende que sentir dor não é o único jeito de saber que se está viva.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Fight Club

Warning: If you are reading this then this warning is for you. Every word you read of this useless fine print is another second off your life. Don't you have other things to do? Is your life so empty that you honestly can't think of a better way to spend these moments? Or are you so impressed with authority that you give respect and credence to all that claim it? Do you read everything you're supposed to read? Do you think every thing you're supposed to think? Buy what you're told to want? Get out of your apartment. Meet a member of the opposite sex. Stop the excessive shopping and masturbation. Quit your job. Start a fight. Prove you're alive. If you don't claim your humanity you will become a statistic. You have been warned.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010





night shift noun

[C] a period in the night during which a particular group of people work

[S + singular or plural verb] the group of workers who work for a period during the night

(Cambridge Advanced Learner's Dictionary)

para e.f., pela conversa de ontem. there will always be the flowers!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Night Meer



estávamos os tres na janela olhando aquela árvore que cresce no jardim dos fundos do prédio de vcs. ela estava coberta de neve, mas não estava seca como as árvores daqui. suas folhas estavam verdes e úmidas. também não havia neve no chão, apenas nos galhos. era como se a neve tivesse brotado da própria árvore. era como se ela tivesse virado uma cerejeira florida. os sinos tocaram e eu me surpreendi. eu disse que nunca havia reparado que havia uma igreja perto da nossa casa e nem que os sinos dessa igreja costumavam tocar. era a primeira vez. ficamos quietos por um bom tempo, primeiro ouvindo o sino terminar de tocar. depois ouvindo o silêncio. ficamos tanto tempo em silêncio que uma hora eu me perguntei se na verdade deus não seria o silêncio. eu perguntei o que vcs achavam e vcs disseram que era bem capaz de eu estar certa. mas sabíamos que nunca saberíamos a resposta. ficamos de novo quietos, apoiados no parapeito da janela olhando para a árvore do quintal. a casa vazia logo atrás dela e um pedacinho da rua ao fundo. ficamos assim, quase parados, até o fim. e nossas pernas não se cansaram.

agora eu penso se o silêncio não seria apenas muito de nós mesmos. e essa seria exatamente a mesma conclusão da que cheguei no sonho.

domingo, 17 de janeiro de 2010


“Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem - pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela - apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo salvagem e suave. Aviso que ele não tem nome: basta chamá-lo e se acerta com seu nome. Ou não se acerta, mas, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso tambem que não se deve temer seu relinchar: A gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou de cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez."

Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou O livro dos Prazeres

much more than elective affinities.



it may seem that one is undergoing something temporary, but it could be that in this experience something about who we are is revealed, something that delineates the ties we have to others, that shows us that those ties constitute a sense of self, compose who we are, and that when we lose them, we lose our composure in some fundamental sense: we do not know who we are or what to do… let’s face it. we’re undone by each other. and if we’re not, we’re missing something… one does not always stay intact. it may be that one wants to, or does, but it may also be that despite one’s best efforts, one is undone, in the face of the other, by the touch, by the scent, by the feel, by the prospect of the touch, by the memory of the feel… ways of being for another or, indeed, by virtue of another.

(freely inspired in j. butler)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

würgeengel, melancholie ou só a sensação de estar derretendo como a neve.

o dia começou como a repetiçao dos anteriores. o despertador tocando e eu não conseguindo sair da cama em um horário compatível com aquilo que se convencionou chamar de manhã. a manhã não tinha nada para me dar e vivê-la de outra forma que não fosse na cama aquecida com o calor do meu próprio corpo simplesmente não me pareceu atraente. não compensaria o esforço de abadonar o casulo. além do mais, meu quarto está sempre gelado pela manhã e colocar o meu corpo para fora das cobertas era uma auto-violência, que, ao longo do diálogo que eu silenciosamente travava com o snoozer do despertador, me pareceu irracional. eu vivia a falta de luz como uma planta que não encontra estímulo para exercitar seu fototropismo. eu simplesmente não era atraída por nada.

por isso eu desliguei o relógio e acordei novamente apenas três horas depois, já com uma espécie de nostalgia de mim mesma. quando vc mergulha fundo na própria escuridão, há sempre o risco de demorar para encontrar o caminho de volta. pela manhã, meus olhos só vêm vultos. às vezes pequenas bolas brancas que dançam de um lado para o outro. às vezes linhas coloridas que flutuam como nuvens. lavar o rosto com água quente pode ajudar os olhos a distinguir o que é real do que é irreal. aos poucos. mas não terá nenhum efeito sobre o mutismo dos cafés da manhã solitários. ou sobre a efemera constatação de que meus diálogos internos estão girando em falso e não há quem os queira ouvir. encontrar de novo um trilho para eles talvez seja algo dificil de se fazer quando a água chega ao pescoço e apenas a pontinha dos pés pode tocar o fundo. não sei se já é hora de precisar de um salva-vidas. ou é só a subjetividade precisando ouvir a própria voz para acreditar que pode nadar. eu me senti melhor depois das duas xicaras de café quente, enquanto ouvia as notícias sobre a previsão do tempo e a privatização do sistema de transporte público alemão. a vida real tentando penetrar pelos meus ouvidos. por um segundo, sair imediatamente para a biblioteca me pareceu um bom plano para o dia. mas logo depois me sentia tão esgotada quanto os ingressos que não conseguimos comprar. e tão sozinha como a ultima poltrona disponível para a sessão do dia catorze. depois eu simplesmente deixei de prestar atenção. o fim do estado de bem-estar social me preocupava menos do que os quilos a mais que o inverno está me fazendo ganhar. esse seria um dia mais triste que os anteriores.

uma espécie de anjo exterminador me fez postergar o caminho da rua. eu fiquei horas sentada no computador, me ocupando de tarefas desimportantes e ouvindo a neve derreter e derrubar pedaços de gelo na calçada interditada. me senti protegida por ver isso pelo lado de dentro da janela dupla. de acordo com o relógio eu talvez tenha passado uma ou duas horas assim, mas para mim eram centenas delas. tempo suficiente para que o envelhecimento se fizesse notar. eu fui repetidamente refazendo meus planos para o dia. um a um, eles foram se mostrando sucessivamente inviáveis. as possibilidades me oprimiam. por falta de decisão, eu cheguei até a consultar o horóscopo, mas suas previsões apenas me cansaram. a liberdade quando não exercida é um peso. só quando comecei a ouvir o barulho forte dos macacos nas jaulas do andar de cima é que eu supus que um pouco de ar fresco pudesse me fazer sentir novamente como se eu de fato tivesse alguma autonomia na condução do meu dia. alimentar essa ficção era exercer o resto de misticismo que me sobrou.

eu parei quando o farol de pedestres estava vermelho, ainda que não pudesse avistar nenhum carro se aproximando em nenhuma das direções. o tram que ia para a schwarzkopfstrasse estava parado no ponto e parecia desligado. havia aparentemente condições objetivas de segurança para eu atravessar a rua, mas eu simplesmente não queria ser responsável por essa decisão. queria apenas me jogar confortavelmente no reino das expectativas normativas, esperar o sinal verde e atravessar sem olhar para o lado. eu estava confortável dentro do meu casaco, do meu cachecol grosso e da minha música e deixei que apenas as minhas pernas ficassem responsáveis por reagir ao movimento da rua . quando eu terminei de andar e cheguei à calçada do outro lado, me senti como uma lua vazia. eu procurei a cabine de fotos de que vc fala, só para ver como seria tirar uma foto de uma lua vazia. depois eu pensei que teria direito a cinco poses e seria um desperdicio usá-las justo no dia em que não eram possíveis variações. eu cheguei na praça do teatro e seu espaço vazio era um lugar para o encontro de correntes de vento frio vindas de todas as direções. pela primeira vez no dia, eu chorei. e o vento frio congelava as lágrimas penduradas no meu rosto. elas doíam como cortes na pele feitos pela borda afiada de uma folha de papel em branco. eles são bem finos, imperceptíveis a olho nu, por isso demoramos para identificar as causas da dor. uma dor fina e delicada, bastante suportável. não havia um grito.

da praça do teatro, saem várias ruas e eu podia tomar qualquer uma delas. quando eu tentei pensar em algo, só me vieram lembranças. imagens misturadas das vezes em que passei por aqui. eu resolvi ficar só com uma delas, a mais antiga. por isso, resolvi pegar a rua em que havia a pequena quitanda chinesa onde eu parei para comprar maçãs verdes naquela tarde de primavera. o dia em que eu encontrei esse teatro por acaso enquanto andava de bicicleta pela cidade e parei para comer maças verdes na grama dessa praça que hj está coberta por meio metro de neve. a venda chinesa me pareceu mais triste do que da primeira vez. não há produtos coloridos expostos na calçada. não havia ninguém comprando folhas verdes para a salada fresca do jantar. eu não tive vontade de comprar maçãs verdes. todos os clientes da quitanda chinesa pareciam estar agora na livraria que fica do outro lado da rua. eu entrei ali para tentar esquentar um pouco o corpo e pensei em quantas pessoas que olhavam atentamente os livros não teriam sido atraídas pelo mesmo propósito. eu tinha certeza de que compartilhava o mesmo hálibi com alguma das companhias anônimas daquele lugar. as horas na livraria folheando o que viesse a minha frente acalmaram de alguma forma o sofrimento das coisas ausentes. os fanzines em impressões de baixa qualidade me fizeram sentir acompanhada. me deu um senso de concretude para a palavra viabilidade. quantas pessoas no mundo não estariam sentindo o mesmo tipo de angústia? a vontade de falar algo que está além dos meios de expressão que estão a minha disposição. a insuficiência das palavras. a somatizaçao do silencio e do cansaço no próprio corpo. no canto da estante, um livro sobre a condição do artista na sociedade pós-fordista. eu sequer abri para ver o índice, porque ele não falaria nada para mim.

a paralisia é um tipo de proteção natural contra o horror. às vezes você tenta se descobrir e acha que é possível distinguir o que é você mesmo e o que não é. mas chega uma hora que enxerga uma massa cinzenta de coisas em que já não é possível diferenciar o que é seu e o que é externo. o que sai da sua boca não é vc mesma. mas também é. a vida que vc leva não é a vida dos seus desejos. mas também é. às vezes seus atos são automáticos, porque vc apenas segue as placas, as regras e os caminhos já traçados. vc é obrigado a viver em um mundo pronto, que já existe e está cheio de coisas, de prédios e de pessoas. vc se move e esbarra em desejos alheios que vão machucando e fazendo pequenas lascas no seu próprio desejo. vc é obrigado a responder sempre pelo mesmo nome, quando queria poder responder apenas “eu”, seja lá o que essa palavra queira dizer a cada vez que vc a pronuncia. tem sempre os dias em que vc já não reconhece mais a própria voz e não entende mais o que te escrevem nos emails que recebe. esse é o dia em que percebe que encontrar o eu é destruir o eu.

mas você ainda pode sobreviver a esse dia se decidir se abandonar completamente no outro. decidir segui-los pelo passeio na neve. pelos caminhos que você não escolhe. ouvindo a música que vc não escolhe. entrando em lugares que você não escolhe. vc vai aos poucos percebendo que está viva quando eles olham para trás para ver se vc está ainda acompanhando o ritmo. de repente vc percebe que pode desviar dos caminhos traçados nas calçadas e andar pela neve fofa, inaugurando um percurso novo só para sentir o prazer de largar o peso do pé na neve virgem. tudo aquilo que vc estava procurando é só um corpo vulnerável à dor e ao prazer. e se vc permanecer nele, ele pode te transportar para além de vc mesma. vc finalmente percebe que pode viver fora de vc mesma. e que isso é muito bom.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

apenas desconhecidos ou cúmplices são capazes de dividir companhias silenciosas. e quando isso acontece com os ultimos é como se as nossas respirações conversassem e a energia dos nossos pensamentos abrisse uma fenda no ar formando uma bolha onde podemos habitar sozinhos. foi aí que passamos a tarde de domingo, sentados nas poltronas escondidas do café francês. foi também dividindo o silencio que passamos a segunda-feira na biblioteca. é bem capaz que nos ultimos dias tenhamos falado menos por palavras do que por silêncios. e escrevemos sobre ele para podermos viver sua calma mais uma vez. lembrar que esse lugar existe quando a respiração ficar ofegante ou a voz falhar. ontem antes de dormir o livro que eu lia também falava de nós - “o silêncio absoluto era poderoso demais quando a pessoa se entrega a ele por um instante, seu encantamento difícil demais de desmanchar”. de novo a nossa vida sendo vivida ao som de ecos sintéticos. eu apertei os olhos para tentar encontrar o brilho da lua, mas o céu estava escondido por uma cobertura marrom. havia apenas o silêncio abafado pela neve. não foi difícil adormecer.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Monday Monday

Segunda-feira. Não confie nesse dia. Não confie na segurança aparente da rotina pedindo para nascer. Ela não poderá te ajudar. Ela não te dará garantias. A rotina dá indicações de caminhos que nem sempre te levam para onde vc quer ir. O seu corpo já sabe o caminho para sair do labirinto, é só vc deixá-lo agir. Ou esperar querer sair. Não ceda aos caprichos desse dia intolerante a dúvidas e hesitações. Deixe que seus olhos se abram lentamente e levem o tempo que for para desincharem da cerveja de ontem. Não é preciso esquecer que estivemos bem perto da morte na noite de ontem. Não acredite se te disserem que devemos tirar o cheiro de cigarro dos nossos casacos para sermos aceito pela manhã. Não deixe que o peso virtual da semana dobre o seu corpo de fora para dentro e esconda novamente o seu coração. Coma a sobremesa no café da manhã e saia para caminhar pela cidade e ver os cavalos soltos cruzando as ruas, os cachorros almoçando nas padarias e a areia de praia cobrindo a calçada. O dia simplesmente tem que chegar e acontecer. Sem avisos. Deixe para entendê-lo só no final. Pode acontecer de vc descobrir que virou um anjo e que pode voar. Sometimes it just turns out that way.

a morada dos anjos

foi você um dia que me disse que o aleatório é o caminho mais interessante a seguir. "viva o shuffe", essa foi a frase escrita em mim.

"should i give up, or should i just keep chasing pavements even if it leads nowhere?"

eu nunca tinha ouvido essa música. isso acontece quando a gente divide armários virtuais. você deve ter guardado ela aqui. imagino como seria ter que um dia separar cada arquivo, catalogá-los por datas, separá-los um a um, você guardando os seus e eu os meus, apagando os do outro da memória. impossível.

daqui de onde estou sentado, nesse lugar imenso e branco, vejo círculos no teto e luzes frias por todo lugar. elas acendem as prateleiras, muitas delas, cheias de livros que nunca vou ler. estão em outra língua, uma língua que não conheço. ao redor das prateleiras, as mesas acomodam pessoas, todas elas em silêncio profundo. nunca vi tantas pessoas fazerem tanto silêncio juntas.

saio pelos corredores, passando pelas prateleiras de livros, circulando pelas mesas pessoais onde tantos deles estão lendo, estudando, escrevendo. me sinto parte daquele filme do wim wenders, que tem exatamente uma cena filmada aqui. a morada dos anjos. uma cena que vi há tanto tempo na universidade, mas que você colocou no You Tube e pude ver de novo. o armário virtual de recordações e lembranças nunca nos deixa em paz. viver a nostalgia é questão de um clique apenas. e nessas horas a internet me conforta. parece que nada está perdido, tudo está lá. posso clicar em mim mesmo e me acessar, trazendo de volta uma época, um sentimento, uma estranha sensação de viagem no tempo.

pois eu aqui sou como um dos anjos, olhando para cada um deles, enquanto percorro os corredores e escadas. ninguém me olha, ninguém se distrai com meus passos. sou invisível. sinto vontade de poder tocá-los, para ouvirem suas aflições e angústias, entender o que sentem e poder confortá-los. mas não. não falo sua língua, nem compartilho de seu raciocínio. mas posso sentir algo muito forte vindo de cada um deles. são muitos. o ser humano emana uma energia absurda e todos juntos me mostram o silêncio mais ensurdecedor que eu já presenciei.

muitas vezes a música alta, as conversas ao redor e cafés sendo derrubados por atendentes com pouca experiência chegam a me atrapalhar um pouco. talvez em silêncio eu os entenda um pouco mais. e me bate a vontade de subir naquela estátua enorme de anjo dourado, no meio daquele jardim que eu nunca entrei. me jogar de vez. sair da condição de invisível e mergulhar em um mundo novo.

como no filme: falar a sua língua, fazer parte do seu mundo, entender a sua poesia, sentir novas coisas que hoje não sou capaz de sentir. talvez as minhas dores e angústias hoje não fariam mais sentido após a queda. ou talvez eu começasse a sentir novas dores e angústias de um lugar que mal conheço. medo. medo de se jogar. a distância ainda me proporciona conforto. ser o olho que vê de fora me permite inventar diálogos, criar cenas possíveis, brincar de anjo. eles são personagens, não são reais. vivem nesse mundo, enquanto eu os vejo de fora.

aqui de cima, a cidade me atenta e enquanto não decido pular, a vida me leva no shuffle.

domingo, 10 de janeiro de 2010

viagens

"as viagens são uma violência. a pessoa se vê forçada a confiar em estranhos e a perder de vista todo o conhecido aconchego do lar e dos amigos. vive em constante incerteza. nada lhe pertence a não ser o essencial - o ar, o sono, os sonhos, o mar, o céu - , tudo o que se aproxima do eterno ou do que dele imaginamos."

Cesare Pavese

sábado, 9 de janeiro de 2010

calabouços




sim, é isso. amar é deixar livre, mas nunca negar o que se está sentindo.

nunca acreditei em calabouços, porque para mim sempre existe uma corda que pode te levar para cima. e sempre existe uma forma te pegar o outro pela mão.

se a neve continuar caindo forte fazendo com que toda a energia da alemanha acabe, desligando nossos aquecedores e nos fazendo morrer de frio, é só deitar aqui no chão e eu te farei reiki, te darei todo calor para que você seja a única pessoa desse país que não congele e possa contar do jeito mais lindo toda história.

Yogi Tee


Anmut schenkt Zufriedenheit

beauty presents satisfaction

grace gives contentment

charm donates contentedness

elegance endows happiness

amenity presents satisfaction

sweetness gives contentment

comeliness donates contentedness

goodliness endows happiness

gracefulness presents satisfaction

loveliness donates happiness.


despertei do meu sono pesado com o ruído abafado dos passos subindo a escada. a chave na fechadura fazia o mesmo barulho da colher que mexia seu chá à noite antes de dormir, quando a sorte nos dizia que a doçura nos presentearia com contentamento. meus olhos se abriram como se estivessem esperando ver. a manhã escura me fez duvidar que estivesse olhando para dentro de mim e o frio que a parede exalava deixou claro que o sonho quente que ainda está enroscado no meu cabelo é só meu. meu amor dentro dos tímpanos e eu despedindo-me da possibilidade de voltar a sonhar. uma nuvem branca de neve e vento bateu na janela com uma violência deselegante. e eu cogitei ser um vento de sal. os cachorros e as crianças ainda não acordaram, mas tecnicamente essa não é mais uma hora para insônia. o império da noite se desfez e não há mais silêncio. um dia que começa lentamente, assim como o ano. enquanto estamos todos tentando ganhar tempo. a diferença entre alguma coisa e nada é nada. e isso é a mesma coisa que dizer que não há certo ou errado. mas ainda precisamos de tempo para viver sem temor os desejos do momento. talvez seja só o tempo de entender que prazeres e sofrimentos dispensam explicações. só o tempo de entender que dentro dos gemidos e dos gritos há um querer do outro que é o outro e um querer do outro que não é o outro. e isso é tão natural quanto o som que brota das paredes e escorre até desaparecer no carpete do chão do meu quarto gelado. agora é tecnicamente uma tarde de sábado e a tempestade de sal que cobria o deserto acaba de acabar. eu vou sair na rua atrás de um café com leite quente. atrás do gosto doce da tempestade quando acaba.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

verões... verão...

um instante, um suspiro... e todo ar que estava estacionado dentro de mim vai embora. é expulso, se desmancha no espaço. se viver é respirar e cada respiração são segundos a menos de vida, prefiro agora respirar lentamente. e lentamente me encontrar com o seu ritmo, sua cadência. é só uma questão de respiração.

às vezes preciso tomar fôlego sozinho. a respiração aumenta o ritmo e acabo não achando minha sunga de natação. mas no aquário de peixes alemães, flutuando em grupos, eu encontrava o meu caminho. e não era uma linha reta, não era uma raia azul que me guiava. desviava dos demais peixes, fazia curvas, prestava atenção aos movimentos ao redor. não parava nunca. nadar é controlar a respiração e eu voltei a mim.

encontrei o meu verão nas águas. de repente era calor, de repente meu corpo entendia que estava vivo e se mexia repetidamente para chegar do outro lado da piscina. comecei a nadar "costas". sou campeão nesse estilo, lembra que te contei na companhia de um café gigante? aquela tarde foi tão boa com você... de costas, a gente se arrisca mais, é por isso que ninguém gosta desse estilo, você me disse. e eu lembrei que eu gosto. a partir desse momento, os peixes alemães começaram a se desviar de mim. e minha respiração já estava salva, já estava entregue.

se entregar a quatro mãos que te tocam seria algo tão difícil para mim antes de tudo. lentamente me deixei levar ao som da mesma banda que eu ouço agora. disco que dividimos. transe profundo. depois daquilo, consegui radiar todo calor do meu corpo em você, em vocês...

e hoje eu acordei e disse a você: "estou com um frio aqui dentro de mim". no momento, pensei ser algo ruim. mas depois de um tempo (ah, e como o tempo calado vem me ensinando coisas), eu senti um prazer, senti que meu calor foi amor. e se doou.

o dia de hoje, mergulhado na praia, no sol quente, nos encontros de nossos pensamentos e nosso café e nossos abraços, e a música no seu fone que eu podia escutar com o meu ouvido e o beijo carinhoso já me encheram de calor de novo, um verão interno.

a neve cai lá fora e eu sinto em mim o poder de fazê-la derreter...


"Joy appears now in the little things. The big themes remain tragic but a leaf fluttered in through the window this morning, as if supported by the rays of the sun, a bird settled on the fire escape, joy in the taste of coffee - joy accompanied me as I walked to the press. The secret of joy is the mastery of pain."

Anaïs Nin

pq a estação, esse ano, não será o inverno

São nossas costas as que mais suportam o frio nesses dias de inverno. Quando se torna difícil demais, aperto o peito contra ele mesmo e estico as costas. Todos os movimentos tendem a lembrar uma concha e é muito complicado não aceitar, simplesmente, se recolher. Viemos para a cidade em uma época do ano em que recolher é palavra de ordem para permanecer vivo. Os nativos sabem que, em dias assim, as doenças estão por todas as partes então é sempre melhor ficar em casa. nossas costas são o exemplo mais físico sobre essa necessidade de encapsular-se. Proteger-se em um pequeno cocoon é só um outro jeito para subverter a lógica pré-estabelecida de uma viagem. Você acredita que seja coincidência nós dois termos trazidos, em discos diferentes, as mesmas letras de musica? Você acha que nossos vinis repousando ao lado dessa vitrola não são um jeito de protegermo-nos do mundo? Os discos, quando tocam apenas para nos lembrar de quem um dia fomos, são nossas costas curvadas, nos protegendo do frio. não foi à toa que sua câmera quebrou. Você também precisou de um tempo para ser só você. Destroy your billiant career – às vezes você é só o cara que sente as coisas com mais intensidade, talvez vez por isso você seja sempre o primeiro a saber a hora certa de parar. Você não foi o único a se surpreender com a simples constatação de que certo e errado não existem pq suas variáveis dependem unicamente de um ponto de vista para existirem. É tudo sobre aumentar as costas. Curvar o peito para dentro dele mesmo por tempo demais pode nos deixar sem saída quando o medo bater. No inverno é sempre mais perigoso perder-se dentro de si mesmo e não ter para onde escapar. Se viemos até aqui, foi só para que conseguíssemos eleger o verão, a estação máxima de nossos personagens.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

quem já viu, sabe!

Às vezes basta que passemos uma hora imersos em nossos mundos para que a vontade de se reencontrar seja urgente. Pouco a pouco vamos habitando espaços particulares, santuários de intimidade. Não que para isso hábitos precisem ser mantidos. Basta que, a cada dia, você encontre nele um espaço para ser você independente de qualquer julgamento. Como quando você está no metrô, olhando para fora da janela, percorrendo a linha verde de volta para casa. todas as estações da linha verde contem um pouco de nossas casas, personas que habitamos para conseguir continuar existindo. Longe do mundo os espaços de conforto podem ser mais difíceis. Alguns sentem falta do sol. Outros procuram, desesperadamente, por uma hora sendo só. Aqui, um nada na piscina municipal, outro faz yoga do outro lado da rua, e outro escuta Caetano rebolando na sala de trabalho. e esse outro constata que tudo é uma questão de rebolar um pouco mais. aquecer a cundalini porque ela parece ser a primeira a querer morrer. Quando você redescobre o poder do rebolado, os passos com certeza, quando você se permite não ter medo de cair, tudo está certo. Alguns precisam do sol, outros também precisam do chão. Hoje toca esse disco que você me apresentou pela primeira vez. Não sei para você também, mas para mim, me parece tão libertador não precisar querer ser o homem da gravata florida. O homem da gravata florida é um cara estranho demais. Muita positividade pro meu gosto.

palavras, gestos, olhares

racionalizar em palavras o que sentimos é uma coisa estúpida. entramos em um jogo de argumentação que parece que algum precisa convencer o outro ou convencer a si mesmo aquilo que se sente. sendo que é no sentido contrário que as coisas fluem.

a cada minuto, uma sensação toma conta de você. a angústia vem quando sua cabeça não concorda com seu coração e você se põe a lutar consigo mesmo, em um conflito interminável. "por ques" e "comos" são as perguntas mais corriqueiras, como se alguém um dia fosse trazer alguma resposta certa.

o certo e o errado são exatamente a mesma coisa, porque eles não existem. teorias e pensamentos parecem nos ajudar a agir, mas na verdade nos distanciam daquilo que é mais importante: sentir. sua cabeça é seu mundo. solidão é existir. conhecer a si mesmo é respeitar aquilo que se sente.

estar livre é desprender-se do passado e do futuro. lembranças e planos não ajudam a deixar o presente acontecer. só trazem fantasmas que nos aterrorizam. às vezes gente acaba se contaminando por aquilo que a gente era quando voltamos a conviver com pessoas que tem uma projeção definida sobre nós mesmos. destruir essa projeção é tarefa árdua, mas necessária para alguma mudança.

a tristeza de um olhar vem do outro olhar e esse círculo vicioso só pode terminar quando a força de um traz o sorriso. assim como aprendemos desde bebês a imitar os gestos do próximo para tentar entendê-lo. sorria para você primeiro, para que o sorriso seja sincero para o outro.

would you believe in a love at first sight?




how do I feel by the end of the day?
are you sad because you're on your own?
no, I get by with a little help from my friends...
I get high with a little help from my friends...



basta sair na calçada para se desequilibrar. e se vc está dentro da vida, o mais provável é que vai cair mesmo. mas o dia pode começar novamente às 9:30pm e podemos voltar a ser nós de novo. isso é o mais próximo que podemos estar do sol. a respiração vai se acalmando na medida em que nos aproximamos das coisas infinitas. dançar juntos de olhos fechados no escuro colorido de um lugar cheio de fumaça. caminhar para casa em silêncio para proteger a garganta do ar frio. deitar no chão da sala e olhar o rodapé de gesso que emoldura o teto do apartamento enquanto o nosso disco preferido toca na vitrola e o dia tenta amanhecer. quando a nossa vida fica parecida à letra de uma música escrita em 1967, é porque está tudo certo.

imperativo do presente...

Agora, leio em um livro a seguinte frase:

"CONHECE-TE A TI MESMO!"

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

...

hurt

tudo o que eu mais queria agora era te ver... mudar por dentro é tão difícil. a gente acha que as coisas são constantes, mas elas mudam e te surpreendem. e te deixam num estado de alerta desprotegido, tudo te afeta, nada te acalma. planejar é se decepcionar. sempre.

o inverno é rigoroso e a neve não é mais novidade. cada dia que algo acontece e faz brotar em mim a dor, parece que já morri. morri antes do dia terminar. mas sei que a cada dia você renasce e as coisas novas te refrescam.

a gente não sabe lidar com uma vida boa e calma. tem que arranjar problemas para complicá-la. e depois se arrepende. às vezes me conheço tão bem, às vezes me perco em mim mesmo e deixo de ser eu, sem mesmo me dar conta disso. e me torno o ser mais odiável e insuportável. meu maior inimigo.

meta: fazer as pazes comigo mesmo.

o seu amor - ame-o e deixe-o ir onde quiser




tem sempre um momento do dia em que vc atinge o estágio máximo de descontentamento. vc nunca sabe bem quando ele acontece, nem qual o limite diário de tristeza vc terá de suportar. há dias melhores que outros. depende sempre da conjugação de muitos fatores. do seu relógio biológico. do quanto dormiu. do funcionamento do aquecimento. da quantidade de carboidrato que ingeriu. das músicas que apareceram no shuffle do seu ipod. de quão umidos estão os seus pés e quão congelados ficaram os seus dedos no percurso da casa até o café mais próximo. da quantidade de luz que conseguiu atravessar a camada espessa de gelo que cobre nossas cabeças, mas principalmente de quanto tempo vc permaneceu invisível.

there neath the covers

eu preciso de mais força de vontade para não tomar um drink do que você precisa para tomar. mas às vezes eu apenas acordo com menos energia ou menos vontade de sustentar vontades que não são as minhas. mesmo que isso possa ter resultados inesperados. mas o que não tem, afinal? quem ainda acredita que a vida tem alguma lógica? a ordem é sempre o evento menos provável de acontecer. é menos provável do que decidir abandonar a si mesmo enquanto se escova os dentes. mas milagres sempre acontecem. eles acontecem toda a noite que tomamos um taxi e decidimos voltar juntos para casa. mesmo que isso signifique terminar a noite comendo algo frio na cozinha quente, tentando satisfazer com carboidratos as necessidades não satisfeitas de mais uma noite de solidão. noites de solidão são inevitáveis quando sorrisos e lágrimas viram nossa moeda. quando acreditamos que não há um plano possível de distribuição equitativa de prazeres e sofrimentos. a crueldade das injustiças que jamais se renderão às medições estatísticas. sensibilidades recessivas sofrendo em silêncio nessa noite fria. o aquecedor do meu quarto não funciona direito e eu quero ficar com você. e essa é só a justaposição um pouco trágica, mas também um pouco irônica de sentimentos que habitam o meu corpo no momento em que eu me encolho, abraço endogenamente as minhas próprias pernas e tento me afundar no calor artificial dos cobertores. não tem nada de especial nisso, nem de errado, nem de triste. é só a vida entrando fria pelas narinas e expandindo com força os meus pulmões. é só a vida provando que depende de movimentos involuntários. sincrônicos, porém pouco controláveis. é só mais uma noite na vida de quem um dia entendeu que não dá para distribuir o prazer equitativamente durante as nossas horas, nossos dias, nossos anos. nenhum plano vai nos garantir receber uma quantidade constante de calor ou bem estar. isso seria apenas uma espécie de aposentadoria emocional. uma estratégia enganadora de estabilidade ou segurança ou uma troca perversa: você não vai ter momentos de prazer ou felicidade intensos, mas também não terá momentos de tristeza profunda. como se nossos sentimentos ou estados anímicos funcionassem como uma bomba hidráulica de baixa complexidade: quanto maior o nível de um, menor o de outro, proporcionalmente. quanto mais bem distribuídas as suas emoções, você poderá ter uma vida aristotelicamente mediana. felicidade e tristeza em tons pastéis. mild, como dizem em alemão. não, obrigada. estou ok com os meus cobertores por enquanto. além do mais, eu estou quase certa de que isso não funciona. e quando vc perceber isso, talvez você tenha tempo e vitalidade para remediar ter vivido uma vida simplesmente confortável. mas talvez o seu corpo não aguente mais. talvez você simplesmente não esteja mais. nunca saberemos. por isso, eu acho esse um jogo arriscado demais. hoje de manhã eu acordei antes do despertador tocar. e enquanto eu preparava o meu café marianne faithful começou a cantar the ballad of lucy jordan na rádio da cozinha. at the age of 37 she realized she'd never ride through Paris in a sport car with the warm wind in her hair. so she let the phone keep ringing, as she sat there softly singing pretty nursery rhymes she'd memorized in her daddy's easy chair. marianne faithfull apareceu naquela naquela hora improvável da manhã para dizer que há muitos jeitos de se passar o dia. que você pode limpar a casa por horas ou arrumar as flores. ou correr pelada pela rua, gritando pelo caminho. no meio daquele programa matinal de notícias, ela só dizia com uma voz calma de quem também já enfrentou noites tristes que não podemos esperar até os 37 para perceber que não devemos arriscar nossas vidas, por medo de viver. e enquanto ela me dizia isso, eu me encostei na janela ao lado do aquecedor. o meu pé quentinho e eu esperando o leite ferver. me sentindo feliz ao acompanhar a beleza dos flocos de neve flutuando pelo ar. mesmo que a noite tenha sido fria. mesmo que eles derretam antes de chegar ao chão.


"Os barcos estão seguros se permanecem no porto, mas não foram feitos para isso".
Fernando Pessoa

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

where do the children play?





eu olho as crianças de berlin com uma atenção que eu nunca dediquei a seres desse tipo antes. à noite eu baixo fotos ou filmes que fiz no dia e sempre encontro muitas crianças neles. até você já notou. crianças nunca me atraíram esteticamente. e crianças berlinenses que vivem em prenzlauerberg não têm nenhuma especificidade, fora o fato de serem loiras e terem bochechas rosadas. sequer fazem o meu tipo. eu fico pensando se esse súbito interesse por crianças não seria uma espécie de manifestação hormonal. afinal, quando você faz trinta e especialmente se é mulher, deveria começar a pensar em ter filhos. é verdade que de alguma forma nós já pensamos nisso. já temos um plano. mas ainda achamos que não é a hora certa para executá-lo. eu fico me perguntando se estou apenas vivendo mais um capítulo da batalha interminável entre os meus hormonios e a minha cabeça. de um lado, o desejo de reproduzir imediatamente, enquanto todos os orgãos implicados funcionam bem e estão no auge de sua vitalidade e, do outro lado, a força contrária sempre tendente a planejar coisas no futuro e a racionalizar sobre o momento ideal para. a enumeração de coisas que tenho a fazer antes de ter um filho. a contabilidade dos prós e contras. será que quando olho para as crianças ao meu redor meu olhar é apenas um resíduo desse conflito interno e silencioso que assola mulheres em idade fertil? eu continuo achando que instintos de maternidade não são suficientes para explicar o que eu sinto. eu já não tenho problemas em ser reduzida a forças animais. eu tenho crises existenciais horríveis nos meus períodos de tpm e já me adaptei à idéia de que até mesmo a lua pode influenciar mais o meu comportamento do que uma sessão de psicanálise. a verdade é que nunca seremos capazes de explicar em que medida tudo aquilo que tentamos digerir racionalmente são na verdade obra dos nossos hormônios ou do nosso metabolismo. ou do acaso. ou do destino. coisas que têm um modus operandi misterioso e secreto. grandes demais para alcançarmos. mas quando você me olhou de perto e fez em voz alta a mesma pergunta que eu de alguma forma já vinha me fazendo eu primeiro desconfiei das suas intenções, mas depois só deixei o desconhecido entrar para sentí-lo. e eu consegui perceber que quando eu olho para as crianças que andam pelas ruas de berlim em pequenos trenós, eu simplesmente quero ser uma delas. eu quero estar sentada no trenó e não quero ser a mãe que anda na frente e o arrasta.
talvez seja só cansaço de estar ereta o tempo todo. mas também pode ser simplesmente o desejo de sentir o frio na barriga a cada deslizamento. a sensação de que vc pode andar entre as pernas dos outros e não precisa saber para onde está indo. quanto mais eu tento prestar atenção nos meus desejos, eu entendo que eles estão sempre no presente. as formulações que usam verbos no futuro saem da cabeça e não do coração. o dia que vc entende isso, começa a prestar mais atenção nas soluções simples, quase primitivas, formuladas com poucos verbos. eu sou, eu quero, eu tenho. eu amo. o cerne do nosso ser é imagens, cores, cheiros, sensações e desejos. que só podem ser traduzidos aproximativamente em frases curtas, formuladas com verbos no presente do indicativo. é essa a lingua que as crianças falam. e as coisas seriam muito mais fáceis se, assim como elas, fizéssemos mais afirmaçoes no presente do indicativo. se deixássemos um pouco de lado o passado e o futuro e abandonássemos o subjuntivo. com muito mais razão, o pretérito do subjuntivo. o que eu teria feito? o que eu teria sido? em que série da escola aprendemos esse tempo verbal? em que série aprendemos a nos arrepender? por que aprendemos na escola tanta coisa que não importa? se eu não souber usar o pretérito do subjuntivo, a vida simplesmente foi o que foi. e isso está muito perto do real. a minha vida foi o que foi e é o que é. e está tudo bem assim. estou quase no meio dela e me sinto bem so far. a questão é que quando se chega quase no meio dela, vc entende que não quer disperdiçar tempo com elocubrações inúteis. you just happen to be here. num parque cheio de neve fofinha, onde vc pode correr e sentir seus pés afundarem ou fazer um bolo de neve com as mãos só para destruí-lo no momento seguinte e atingir algum alvo fácil. o que importa para nossa felicidade está a uma distância bem pequena do que chamamos de agora. uma casa quentinha e um leite com chocolate. talvez algumas horas fazendo colagens, dançando na sala ou folheando revistas. a companhia quente da sua familia. eu acho que talvez tenha sido exatamente por isso que vc tatuou o seu braço: só para não ter medo de começar uma guerra de neve quando ninguém estiver prestando atenção nos seus movimentos. é preciso agir. e lembrar-se todos os dias que isso só acontece no presente. as coisas importantes habitam o presente. por isso é que definições, conceitos, rótulos, arrependimentos, consequências ou previsões são jogos de adultos. e eu não tenho vontade de jogá-los, ainda que me digam que isso é não querer crescer. se você não é eterno, assim como eu, talvez prefira passar uma tarde inteira estreiando seu giz de cera e desenhando em folhas brancas.
sim, perceber isso é algo que acontece lentamente. talvez eu demore mais trinta anos para desfazer todas as camadas de razão que estão agora sobre o meu corpo. acho que é por isso que os velhos se parecem com crianças. eu sei que ainda faço muitas formulações em modos e tempos complexos. todos os dias falo um monte de frases no futuro. ou ao menos penso nelas. talvez isso seja apenas medo de me jogar profundamente no desejo do presente. medo de experiencias cujas consequencias não poderei controlar. como se eu pudesse controlar aquilo que eu ingenuamente acho que está sob meu controle agora. por que é tão difícil aceitar a contingência radical da vida?
eu passei bastante tempo sem sequer entender isso. querendo evitar o momento em que a brincadeira poderia simplesmente acabar. o seu amigo olhando para você e dizendo que não quer mais brincar. sem precisar explicar nada. a frustração intrínseca de todas as nossas relações, que não precisamos que sejam mascaradas. seria melhor se não estivessem. a sinceridade que os adultos não têm. sim, podemos ficar tristíssimos quando o universo que construímos e vivemos intensamente naquela tarde no parque simplesmente desaparecer porque ele não quer mais. podemos chorar. sentar no canto e emburrar a cara. querer nos vingar e não emprestar o brinquedo que ganhamos no natal. podemos recorrer aos nossos pais e eles não poderão fazer nada a respeito. só oferecer colo e fazer carinho na nossa cabeça. eles vão dizer que isso acontece, mas que tudo vai ficar bem. e o melhor que temos a fazer é acreditar nisso. na maior parte das vezes, é disso que precisamos: carinho na cabeça, um banho quente, depois colocar o pijama limpo, com cheiro de amaciante. arrumar a calça do pijama para dentro das meias, para não sentir frio nas canelas. tudo vai ficar bem na manhã seguinte. ainda que nada possa ser feito. e nem por isso eu vou deixar de acreditar que bonecos de neve têm vida. lidar com a dor das frustrações e dos desejos desencontrados é a melhor coisa que nossos pais puderam nos ensinar. um mundo sem mentiras e sem paliativos. eu não entendo porque nossos professores nos faziam tantas perguntas sobre o que queríamos ser quando crescer se o melhor que podemos fazer agora é voltar a ser crianças?



don't think twice, it's all right.

domingo, 3 de janeiro de 2010



a alma é a parte mais cansativa do corpo. mas às vezes ela só precisa de calor para descansar.



- what made you become the person you are?

- mother and metabolism.